Um texto morno


Doutor, por favor, como faz pra tirar isso de mim? Quando respiro –lentamente ou ofegante, algo não me desce. Não sei se é na fala ou no peito, mas dói feito doença no corpo, embora eu saiba que é na alma. E se eu chorar? Será que alivia? Tentei, mas nem uma gota. Antes pudesse chorar, me livrava desse sintoma. Eu to tentando tirar isso de mim faz, sei lá. Nem muito tempo, nem pouco. Sabe, quando você tem algo de valor e perde? Não to falando de amor. To falando de posse.  Dor de amor a gente cura fácil que só. Dor de amor chega a ser bela. Eu vou repetir em voz alta “EU PERDI”, umas cem vezes e dentro de mim uma voz oculta dirá “EU NÃO ACEITO”. Distorção dos fatos, quando disse, olhando nos olhos “EU PERDI”, fui interrompida: “você está equivocada demais, quando se desfaz de algo alegando que em sua vida, não há espaço para tal, não se perde. Quando nos desfazemos de algo, é porque não queremos, logo não perdemos”. Doía menos um tapa na cara. Agora eu quero saber, quando é que vai passar? Minha vida não anda, as idéias não fluem, meu humor é rude e minha fala é fria enquanto isso me atormenta. Nem me fale em pedir desculpa. De repente até resolve e me alivia o sentimento de culpa, mas acho que devo desculpas a mim mesma. Mas por segurança resolvi me desculpar com quem vacilei. Uma facada doía menos: “acho que você nunca percebeu, mas você me tratava igual lixo: pega aquilo, faz isso, ai como você é burro, faz de novo, ta errado, sai daqui”. Perdão. Só pensei “perdão”, claro que não falei.  Devia falar? Deixa pra lá. Acho que passei um tempo guardando pra mim toda admiração que sentia. Eu sou toda errada mesmo, não justificando meus erros, apenas me justificando. Dei por mim, que pra seguir em frente, talvez eu só precise me desculpar e parar de me culpar. Respirei fundo e já nem dói tanto. Quase rezei pra isso passar. Foi muito tormento. É muito tormento. Muita culpa, muita lembrança. Intensidade e o coração ainda bate forte. Ainda sinto um vazio em todas coisas que pertenciam a essa história e hoje se isolaram. Já era pra ter passado, né? Até parei de contar o tempo que é pra não me aborrecer. Na prescrição médica: racionalize. Mas eu sou emoção da cabeça aos pés. Se eu pedi espaço, deveria ceder o mesmo. Meu fraco é o egoísmo.  Difícil é carregar o fardo de ex mulher incrível. Olhar pra todo canto e ouvir aquela voz dizendo sobre nossas sombras no asfalto como de irmãos siamêses. Eu até me perdoo. Mas não consigo tirar isso daqui. É um engasgo de quem não sabe lidar com perda. Os melhores momentos da minha vida estão ali. E não vão voltar em matéria, apenas na memória. E é isso que me mata um pouco mais a cada dia. Dei espaço, paz e vida a quem devia. A quem nasceu pra vida e não pra minha.

3 Response to Um texto morno

Triste
29 outubro, 2012

Morno não, achei triste...

Jéssica
29 outubro, 2012

Morno jamais. Não lhe caberia.

Anônimo
29 outubro, 2012

Pedir desculpas é preciso. Mas não basta. Reparar o erro é fundamental. Talvez só assim isso passe.

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